"Os hipocondríacos constroem gaiolas e procuram-lhes a chave de nariz rente ao chão, surdos ao rumorejar da vida um pouco mais além.
Penam de solidão atarefada. Mas quando se decanta a luz soturna da sua melancolia, não é raro encontrarmos um depósito de superstição no filtro.
Através de uma tortura inquisitorial privada expiram culpas inconfessáveis, mas é o corpo e não a alma a ser resgatado. Flagelando-se com doenças imaginárias, exorcizam maleitas possíveis; pagam indulgências com medo e sofrimento, não dinheiro; sofrem para não sofrerem."
Júlio Machado Vaz in O Tempo dos Espelhos
Quando a fixação por remédios se torna uma disfunção
Em qualquer lugar que você vá, leva junto algum remédio?
É só sentir uma dorzinha ou um pequeno
mal-estar, para marcar logo uma consulta com o médico? Tem
mania de comprar remédios na farmácia, para o caso de algum dia
precisar? Esses são alguns sinais que denotam um
hipocondríaco.
Como regra geral, quem tem hipocondria se sente mais à vontade quando está às voltas com o mundo das doenças, em vez de se concentrar no próprio bem-estar. É um comportamento muito diferente daquela preocupação ou cisma passageira, que muitas pessoas têm com algum sintoma ou dor e decide procurar um especialista para tirar a dúvida.
Principais sintomas do hipocondríaco:
- Grande sensibilidade para identificar movimentos, barulhos e outros sinais do corpo que passariam despercebidos para a maioria das pessoas.
- Dar importância demais a qualquer sinal físico ou dor.
- Impressão de que qualquer dorzinha ou desconforto é sinal de doença grave.
- Tomar remédios com freqüência, sem prescrição médica.
- Ter necessidade de consultar vários médicos, apesar de vários deles terem feito o mesmo diagnóstico com base nos resultados dos exames.
"Viver" com a suspeita constante de ser portador de alguma enfermidade grave.
A vista do perigo da
hipocondria
A maioria das pessoas que sofre de hipocondria são pessoas de personalidade carente e com tendência à
depressão e ansiedade. A tendência de se automedicar tende a
agravar ainda mais o quadro da doença. Um dos riscos é misturar
substâncias que não combinam e, com isso, desencadear vários
efeitos colaterais.
O excesso de remédios também pode provocar intoxicações e até matar. A insônia, a enxaqueca e a labirintite, por exemplo, estão entre as queixas mais comuns das pessoas com hipocondria. Por isso, muitos hipocondríacos freqüentemente acostumam tomar comprimidos para dormir e antidepressivos. O problema, nesse caso, é criar dependência: dificilmente essas pessoas conseguem se livrar dos medicamentos depois. A hipocondria não é considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde, porque não apresenta um conjunto claro de sintomas. Classificada como uma disfunção, atinge mais de 1% da população mundial.
A hipocondria e os médicos
Em geral, o hipocondríaco chega no
consultório com uma pasta enorme onde guarda seus exames.
Ele não sabe o que procura. Busca uma
doença. E neste momento o médico pode cometer negligência, a
qual se deve às atuais condições de atendimento. Por ter pouco
tempo para a consulta, o médico mal ouve o paciente, optando por
fazer uma bateria de exames para diagnosticar a "doença". Sem
encontrar nada de errado, ele prefere encaminhar o caso para outro
especialista. E assim o hipocondríaco inicia
a peregrinação por consultórios. Felizmente, há esperança de
que isso mude. Pouco a pouco, os médicos estão modificando sua
atenção ao paciente, procurando entender toda a dimensão psíquica.
A hipocondria vai além do transtorno.
Cada vez mais o corpo se presta a uma forma de representação, um modo de comunicação. Muitas dificuldades na vida se manifestam por via corporal. Quando a pessoa passa a se sentir doente, sem razão para tal, é possível entender o problema como um pedido de atenção. O ideal seria que o médico perguntasse a história de vida desse paciente. Desse modo, o profissional pode descobrir que as queixas nasceram de uma experiência marcante e mal resolvida. Ou seja, se a pessoa evita lidar com o problema, talvez o corpo seja obrigado a se expressar. E na forma de dor.
Tratamentos e a Cura
Dependendo da gravidade do caso é aplicado um
determinado tratamento, por isso a urgência em procurar um
especialista. Quando o psiquiatra ou
psicólogo descobre que a disfunção está associada a algum tipo de
depressão, pode combinar a psicoterapia com o uso de medicamentos
antidepressivos. Os resultados podem vir a médio prazo (1
ano) ou demorar bastante (mais de 2 anos). Tudo vai depender do
diagnóstico preciso e da vontade da pessoa de se
tratar.
Mesmo quem não sofre de hipocondria pode ficar mais sensível às alterações que ocorrem no organismo e se impressiona com elas em algum momento da vida. São episódios breves, que provavelmente estão relacionados com oscilações de humor ou dos níveis hormonais. As mulheres estão mais sujeitas a esse tipo de comportamento durante a menstruação ou no período que a antecede, quando ficam supersensíveis.
Atitudes e emoções podem influenciar na manifestação da hipocondria.
- Desconfiança permanente em relação às condições gerais da saúde.
- Medo constante de morrer.
- Estados freqüentes de profunda ansiedade, tristeza ou depressão.
- Compulsão por conversar com pessoas doentes para comparar sintomas e mal-estares.
- Sensação de segurança ao tomar remédios, mesmo sem a presença de sintomas.
- Sensação permanente de insatisfação, carência e desatenção.
- Negativismo e queixas constantes em relação à vida.
- Não deixe momentos de fragilidade e maior sensibilidade do seu dia-a-dia atingirem seu equilíbrio mental e/ou espiritual.
Se detectar que está fazendo pouco pelo seu bem-estar, refaça seu cronograma diário e reserve mais tempo às atividades que lhe fazem bem. E não se esqueça que o melhor remédio contra a hipocondria é saber desfrutar o prazer de viver.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br

