ESTÉTICA - A
BUSCA DESENFREADA
* Dra. Desirèe Monteiro Cordeiro (Psicóloga - CRP 06/69331)
A questão
aqui não é apenas a busca por mudanças, pois
elas têm a sua função de manter um equilíbrio entre corpo e
mente, mas sim a busca desenfreada por uma mudança que venha
para auxiliar a resolução de problemas.
Estética corporal é um assunto em evidência
desde que as pessoas começaram a se enxergar através de uma busca
do outro por si. Ou seja, queremos ser iguais a alguém que
tem fama, poder, reconhecimento pelo que aparenta ser, e não
sabemos o que de fato essa pessoa é.
Trata-se de uma imagem incorporada pela mídia, que compramos todos
os dias como uma verdade. Perdemos nossa
capacidade de sermos diferentes uns dos outros de forma saudável,
perdemos também a nossa personalidade independente da
aparência. É uma imposição na qual se busca o reconhecimento
e a valorização do outro, não pelas qualidades e caráter de cada
um, mas sim pela forma de relação através da imagem transmitida
pelas pessoas, e não pelo que realmente elas são.
Diante disso, o número de homens e mulheres que buscam mudanças em
seus corpos aumenta dia a dia. O grupo de
pesquisas InterScience, em julho de 2006, fez uma pesquisa sobre o
comportamento do brasileiro de forma geral. Dos 12.477
entrevistados, 90% das mulheres e 65% dos homens afirmaram sonhar
com mudanças no próprio corpo; 5% já tinham feito alguma
plástica, e 90% pretendiam fazer outra. Entre os que nunca fizeram
uma cirurgia plástica, 30% declararam que esperavam criar coragem
para realizá-la. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Regional Minas Gerais que realizou uma pesquisa em novembro de
2005, as cirurgias estéticas, pelas quais se procura apenas
melhorar o visual, representam 60% das cirurgias plásticas. A
maioria delas são lipoaspirações, seguidas das cirurgias de mama,
face e abdômen. Nesse tipo de cirurgia, as mulheres
representam 81%. Nas reparadoras, os homens são 49%. Isso sem levar em conta academias, tratamentos dentários
estéticos, SPAs e tudo mais que coloque em foco a questão
estética.
Esses números nos mostram que algo está deslocado. Insatisfação faz parte do ser humano, e isso é bom, pois
nos motiva a buscar cada vez mais meios para melhorar o que já
somos. A questão é como fazemos isso. Será que essas cirurgias são capazes de transformar uma
pessoa? E para que? Como?
Acredito em qualidade de vida! De fato, se cada um parar para se
perguntar se tem algo que gostaria de mudar, a resposta é
afirmativa. Quando algo nos incomoda a ponto
de nos impossibilitar contato social, profissional e/ou pessoal,
algo deve ser feito para mudar. Mas, nem sempre a cirurgia
estética radical é o caminho. Se perguntar se um tratamento menos
invasivo não seria suficiente, deveria fazer parte desta
busca.
Na maioria dos casos não há uma preocupação apenas com a qualidade
de vida, que é subjetiva na questão estética. Mas sim, uma mudança radical na vida dessas pessoas. São detalhes
que incomodam tanto que deixam pessoas sofrendo cada vez mais, e
buscando formas de mutilações para aliviar tamanho
sofrimento.
Para a avaliação de uma cirurgia estética é necessário um critério
ético do profissional que irá realizar tal cirurgia. Atualmente,
alguns cirurgiões contam com uma equipe multidisciplinar para
avaliar o paciente que deseja se submeter a essa cirurgia.
O psicólogo tem papel fundamental nessa
avaliação, com o objetivo de investigar o que está por trás dessa
busca por transformações, como essas pessoas que buscam cirurgias
se comportam e o que esperam. É comum ouvir de pacientes
que, "uma cirurgia estética disso ou daquilo resolveria minha
vida". Esta fala deveria ser encarada como um sinal amarelo
para uma cirurgia. Deve-se trabalhar neste
momento levantando as expectativas e pontuando que a cirurgia não
irá mudar quem se é, mas apenas aliviará algum tipo de
sofrimento. O profissional também deve mostrar que não há
uma "mágica" capaz de transformar o ser humano. Apesar da aparência modificada, continuaremos sendo os
mesmos. O ser humano é mais complexo do que apenas sua
aparência!
É o mesmo princípio de sonhar em ganhar na mega sena e resolver
todos seus problemas! As pessoas de um modo
geral buscam resultados para suas vidas, porém o que nos preocupa é
o que as motiva. Imaginar que uma cirurgia estética possa resolver
nossos problemas é sonhar com uma fórmula mágica, que em alguns
casos pode deixar tudo pior do que era. Avaliar riscos e
pós-operatório junto ao paciente é um dever de cada profissional
envolvido na questão. Verificar a real intenção em se fazer uma
mudança estética é fundamental nessas
situações.
Dra. Desirèe Monteiro
(Psicóloga - CRP 06/69331)
Psicóloga formada pela PUC-SP. Especialista em psicodrama pelo convênio SOPS/PUCSP. Mestranda pela faculdade de Medicina da USP no programa de psiquiatria. Psicóloga responsável pelo AMTIGOS (ambulatório de transtorno de identidade de gênero e orientação sexual no IPQ-HCFMUSP). Experiência profissional com ênfase em Psicologia Clínica, atendendo crianças, adolescentes e adultos, individual e em grupo, atuando principalmente nos seguintes temas: sexualidade, crianças e adultos em grupo de risco. Psicóloga da clínica Medicina do Comportamento - SP, sob a direção da Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva e Dr. Diego Amadeu Batista Bragante.

