Home Data de criação : 10/02/18 Última atualização : 11/10/17 11:35 / 11 Artigos publicados

A busca desenfreada  escrito em segunda 11 abril 2011 07:00

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Blog de dricamelo :Reflexões e Itinerâncias, A busca desenfreada

 

ESTÉTICA - A BUSCA DESENFREADA 
 

* Dra. Desirèe Monteiro Cordeiro (Psicóloga - CRP 06/69331)

 

 

A questão aqui não é apenas a busca por mudanças, pois elas têm a sua função de manter um equilíbrio entre corpo e mente, mas sim a busca desenfreada por uma mudança que venha para auxiliar a resolução de problemas.

Estética corporal é um assunto em evidência desde que as pessoas começaram a se enxergar através de uma busca do outro por si. Ou seja, queremos ser iguais a alguém que tem fama, poder, reconhecimento pelo que aparenta ser, e não sabemos o que de fato essa pessoa é.

Trata-se de uma imagem incorporada pela mídia, que compramos todos os dias como uma verdade. Perdemos nossa capacidade de sermos diferentes uns dos outros de forma saudável, perdemos também a nossa personalidade independente da aparência. É uma imposição na qual se busca o reconhecimento e a valorização do outro, não pelas qualidades e caráter de cada um, mas sim pela forma de relação através da imagem transmitida pelas pessoas, e não pelo que realmente elas são.

Diante disso, o número de homens e mulheres que buscam mudanças em seus corpos aumenta dia a dia. O grupo de pesquisas InterScience, em julho de 2006, fez uma pesquisa sobre o comportamento do brasileiro de forma geral. Dos 12.477 entrevistados, 90% das mulheres e 65% dos homens afirmaram sonhar com mudanças no próprio corpo; 5% já tinham feito alguma plástica, e 90% pretendiam fazer outra. Entre os que nunca fizeram uma cirurgia plástica, 30% declararam que esperavam criar coragem para realizá-la. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Regional Minas Gerais que realizou uma pesquisa em novembro de 2005, as cirurgias estéticas, pelas quais se procura apenas melhorar o visual, representam 60% das cirurgias plásticas. A maioria delas são lipoaspirações, seguidas das cirurgias de mama, face e abdômen. Nesse tipo de cirurgia, as mulheres representam 81%. Nas reparadoras, os homens são 49%. Isso sem levar em conta academias, tratamentos dentários estéticos, SPAs e tudo mais que coloque em foco a questão estética.

Esses números nos mostram que algo está deslocado. Insatisfação faz parte do ser humano, e isso é bom, pois nos motiva a buscar cada vez mais meios para melhorar o que já somos. A questão é como fazemos isso. Será que essas cirurgias são capazes de transformar uma pessoa? E para que? Como?

Acredito em qualidade de vida! De fato, se cada um parar para se perguntar se tem algo que gostaria de mudar, a resposta é afirmativa. Quando algo nos incomoda a ponto de nos impossibilitar contato social, profissional e/ou pessoal, algo deve ser feito para mudar. Mas, nem sempre a cirurgia estética radical é o caminho. Se perguntar se um tratamento menos invasivo não seria suficiente, deveria fazer parte desta busca.

Na maioria dos casos não há uma preocupação apenas com a qualidade de vida, que é subjetiva na questão estética. Mas sim, uma mudança radical na vida dessas pessoas. São detalhes que incomodam tanto que deixam pessoas sofrendo cada vez mais, e buscando formas de mutilações para aliviar tamanho sofrimento.

Para a avaliação de uma cirurgia estética é necessário um critério ético do profissional que irá realizar tal cirurgia. Atualmente, alguns cirurgiões contam com uma equipe multidisciplinar para avaliar o paciente que deseja se submeter a essa cirurgia. O psicólogo tem papel fundamental nessa avaliação, com o objetivo de investigar o que está por trás dessa busca por transformações, como essas pessoas que buscam cirurgias se comportam e o que esperam. É comum ouvir de pacientes que, "uma cirurgia estética disso ou daquilo resolveria minha vida". Esta fala deveria ser encarada como um sinal amarelo para uma cirurgia. Deve-se trabalhar neste momento levantando as expectativas e pontuando que a cirurgia não irá mudar quem se é, mas apenas aliviará algum tipo de sofrimento. O profissional também deve mostrar que não há uma "mágica" capaz de transformar o ser humano. Apesar da aparência modificada, continuaremos sendo os mesmos. O ser humano é mais complexo do que apenas sua aparência!

É o mesmo princípio de sonhar em ganhar na mega sena e resolver todos seus problemas! As pessoas de um modo geral buscam resultados para suas vidas, porém o que nos preocupa é o que as motiva. Imaginar que uma cirurgia estética possa resolver nossos problemas é sonhar com uma fórmula mágica, que em alguns casos pode deixar tudo pior do que era. Avaliar riscos e pós-operatório junto ao paciente é um dever de cada profissional envolvido na questão. Verificar a real intenção em se fazer uma mudança estética é fundamental nessas situações.

 


Dra. Desirèe Monteiro

(Psicóloga - CRP 06/69331)

Psicóloga formada pela PUC-SP. Especialista em psicodrama pelo convênio SOPS/PUCSP. Mestranda pela faculdade de Medicina da USP no programa de psiquiatria. Psicóloga responsável pelo AMTIGOS (ambulatório de transtorno de identidade de gênero e orientação sexual no IPQ-HCFMUSP). Experiência profissional com ênfase em Psicologia Clínica, atendendo crianças, adolescentes e adultos, individual e em grupo, atuando principalmente nos seguintes temas: sexualidade, crianças e adultos em grupo de risco. Psicóloga da clínica Medicina do Comportamento - SP, sob a direção da Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva e Dr. Diego Amadeu Batista Bragante.



E-mail: saopaulo@medicinadocomportamento.com.br

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