"A ambição nos faz maus, assim como os desejos nos tornam moralmente fracos."
Maquiavel
Nem otimista, nem ingênuo. Maquiavel é um realista. E sua realidade não é idealizada, não é uma metafísica. Ela vem da história e dos flagrantes da vida dos homens. O homem, para Maquiavel, não é um ser dividido entre razão e paixões. Não há uma natureza humana dupla. O homem é o que é, sem oposição entre um homem considerado pelos seus aspectos individuais e sociais. Não há uma transição da natureza humana.
(...) Razão e paixão não são duas partes distintas de um ser, mas dois atributos irrenunciáveis do homem. Resta-os compreender como elas determinam nossa conduta. Comecemos pelas paixões.
O homem é um ser passional. Das paixões, um destaque: o desejo. O homem é desejante, aje por desejo, busca seus desejos, são eles que o movem. E isso vale para todos. Sem exceções. Todos somos desejantes, mas isso não quer dizer que todos desejemos as mesmas coisas e nem da mesma forma.
Maquiavel encara como fato que sejamos todos desejantes e que os desejos são causa fundamental de nossas ações. Certo disso, o que lhe interessa dos desejos é o agir do homem em função deles. Não lhe importa o desejo que não chega a converter-se em ação. Desejos contidos são irrelevantes, mas as atividades que somos capazes de cometer para alcançar o que desejamos fascinam Maquiavel. Isto transparece na empolgação com que narra em sua correspondência e obras políticas os feitos dos grandes homens para atingir o que desejam.
(...) A ambição nos faz maus, assim como os desejos nos tornam moralmente fracos. Aprendemos isto e julgamos Maquiavel como um homem que fala dos desejos e da ambição. Alguém, portanto, que nos conduz à fraqueza e ao mal. Sua política não pode ser seguida! Ela não pode ser lido, pois é um maldito!
Amaldicoamos Maquiavel porque aprendemos a amaldiçoar a nós mesmos. Porque aprendemos a negar a ambição que há em nós, assim como nossos desejos. Nos gabamos de nossa racionalidade, nunca de nossas ambições. À ambição opomos a humildade, como virtude que, ao calar a ambição, permitiria que a razão governasse livremente. É a complacência para com a ambição o que nos choca em Maquiavel.
(...) Maquiavel não é amoral, mas realista, porque sabe que não faz sentido condenar a natureza humana. Não adianta desejar que o mundo seja outra coisa diferente do que é.
Mas o fato é que desejamos que o mundo seja outra coisa, que nós sejamos outra coisa. Pouco importam as contradições ou ilusões que isso implica. A idéia da natureza humana tal qual nos propõe Maquiavel, una, intrasponível e invalorável, nos angústia. Resistimos à idéia da natureza humana porque vivemos em tempos que louvam o individualismo, de maneira que qualquer apelo anti-individualismo é automaticamente associado a autoritarismos. Nós acreditamos livres de nós mesmos, até mesmo de nossa natureza. Ou preferimos uma idéia de natureza humana em potência porque ela não é apenas um conceito biológico ou meramente definidor do homem, mas um conceito politicamente interessante.
(...) Quando admitimos uma natureza humana em potência, permitimos que dividamos a humanidade entre bons e maus, tendo em vista a natureza de cada indivíduo. Nos tomamos maniqueístas e afirmamos que os inimigos são maus e, ao mesmo tempo, que nós somos bons. Satisfazemos nossos egos e ainda nos desidentificamos de nossos inimigos a ponto de podermos impalá-los sem que com isso tenhamos que prestar contas a uma eventual consciência. Afinal, eles não são humanos, são desumanos.
Fragmento de texto extraído do livro "Somos maquiavélicos - O que Maquiavel nos ensinou sobre a natureza humana" de Júlio Pompeu / Objetiva, 2011.

