Home Data de criação : 10/02/18 Última atualização : 11/10/17 11:35 / 11 Artigos publicados

O Bem e o Mal  escrito em segunda 11 abril 2011 07:23

 

 

"Nossa natureza não é bela, nem feia, ela apenas é."

Júlio Pompeu

 

 

Para Maquiavel, a piedade não é uma característica da natureza humana, mas gostariamos de acreditar que seja. A política não é feita por homens piedosos e racionais, mas por desejantes ambiciosos. Se acreditarmos que é possível uma convivência entre os homens sem que as ambições falem mais alto em nossas decisões, que os desejos sejam reprimidos por uma razão que nos tornaria dóceis, então Maquiavel nos acusaria de alienados. Alienados da natureza humana.

Se a hipótese maquiavélica estiver correta; se somos todos ambiciosos; se não há uma razão que nos controle, mas, ao contrário, agimos em obediência a nossos desejos; então nós, desejosos e ambiciosos, justamente por assim sermos, devemos encobrir nossas ambições e desejos. Devemos nos proteger de outros como nós. Devemos negar os desejos e a ambição. Somos ambiciosos, mas também não assumimos que somos.

Diante disso, apenas duas atitudes são possíveis: ou levamos a ocultação de nossas ambições a tal ponto que passamos a acreditar realmente que elas não existem. O mentiroso que passa a acreditar que a mentira que conta é verdade. Ou então temos consciência de nossas ambições e, ao mesmo tempo, as negamos conscientemente, porque sabemos que se não o fizermos seremos condenados. A alienação de nós mesmos ou o cinismo.

Se a hipótese maquiavélica for correta, então o mundo divide-se entre cínicos e alienados. O discurso idealizado sobre o homem e a política sempre prevalece, seja por ambição ou, mais imediatamente, por esperança; por cinismo ou alienação. "Quase todos se deixam seduzir, voluntariamente ou por ignorãncia, pelo brilho enganoso dos que merecem o desprezo mais do que encômios, envolvidos pela atração do falso bem, ou da vã glória."

Cinismos e alienações à parte, muitos dos erros e condenações atribuidos a Maquiavel não são culpa dele. São culpa do leitor e não do autor. Diz-se que toda obra é fruto de seu tempo. O que escreve tem como condição as circunstâncias sociais, políticas e culturais que o envolvem. Esta norma vale para o autor, mas não para o leitor. O livro é obra de seu tempo, mas a leitura que dele fazemos, não. Lemos com nossas crenças atuais o texto de um autor que dela não comunga. Se consagramos idealismos, glorificamos a razão e detratamos as paixôes. Se para nós a ambição é um atributo dos maus, então, ao lermos Maquiavel com nosso olhar afetado de idealismo, acabamos por encontrar em sua obra falsos ideais, ambição e o mal.

As ações humanas nunca podem ser inteiramente más ou boas em si mesmas. Já que todas são movidas pela natureza humana e esta não pode ser outra diferente do que é. Então não há bem e mal na obra de Maquiavel. Mas isto não significa que as ações não possam ser valoradas. Elas o são, mas não em razão delas mesmas, como se houvessem nelas algum valor inerente. Todo julgamento implica uma referência estranha à coisa.

Quando julgamos o que é bom ou mau, o fazemos a partir de como somos afetados pelo objeto julgado. Ninguém pode ser inteiramente bom ou mau porque pessoas afetadas de formas diferentes por uma mesma ação atribuem a ela valores distintos.

Tomemos por exemplo Napoleão, cujas ações o levaram a ser considerado um herói na França e, ao mesmo tempo, um tirano por outros povos por ele subjulgados. (...) Não há uma só conduta que possa ser, em qualquer tempo e em qualquer lugar, sempre boa ou sempre má.

Ninguém é inteiramente bom ou mau, mas insistimos em apontar homens inteiramente bons e maus. Por mais que as evidências nos demostrem o oposto. Mas parece estratégico nos colocarmos como pessoas de uma bondade extrema, assim como apresentar o inimigo como um modelo do mal absoluto. Isto nos agrega, nos une contra outros. Ainda que a bondade e a maldade humanas sejam ilusões, a crença em sua existência permanece porque cumpre seu papel de gerar ódios e confianças, de unir e desunir.

 

 

Fragmento de texto extraído do livro "Somos maquiavélicos - O que Maquiavel nos ensinou sobre a natureza humana" de Júlio Pompeu / Objetiva, 2011. 

 

Vídeo: The Phantom of the Opera (O Fantasma da Ópera) 

 

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